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quarta-feira, 11 de maio de 2016

A importância da sopa!




Até há alguns anos atrás, a sopa era obrigatória na mesa dos portugueses. De tal modo era importante que, quando alguém referia a ementa do almoço ou do jantar, quase sempre falava da sopa e do "resto", termo que conferia à sopa o papel principal. Para muitas famílias de baixos recursos económicos, este era, não raras vezes, o único prato da refeição. Este poderá ser um motivo que leva tanta gente a não a consumir nos dias de hoje... a sua conotação com a pobreza.

No entanto, pela sua riqueza nutricional e pelo seu baixo valor calórico, deveria ser obrigatória nas refeições de todos os que querem ser saudáveis.

Independentemente da região onde é consumida, tem sempre uma base constituída maioritariamente por água, "farináceos" que, dependendo da situação geográfica, podem ser batata, feijão ou outra leguminosa, ou mesmo pão, como na região alentejana. Invariavelmente, os produtos hortícolas como hortaliças de diversos géneros, cenouras, cebolas, abóbora, tomates, feijão-verde, entre muitos outros, entram também na sua constituição. Tudo temperado com um fio de azeite. Sim, um fio, não um rio! 

Rica em vitaminas, minerais e antioxidantes - tão procurados nas farmácias a preço bem mais elevado e, seguramente, sem a mesma biodisponibilidade -, tem também um apreciável teor de fibras, idealmente combinadas com água para uma maior saciedade e um melhor funcionamento intestinal. 

Boas razões para comer sopa
Além de ser indicada no tratamento da obesidade, é importante para a manutenção do peso ideal, para as pessoas que sofrem de falta de apetite ou têm dificuldade em digerir, para os idosos ou ainda para controlar a ingestão compulsiva de alimentos nas crianças, porque:

- é um alimento pouco calórico e com uma grande variedade de legumes, de sabor sempre diferente (nota: quando as pessoas usam cubos de caldos de carne, que, além de um desinteressante valor nutricional, têm sal em excesso, tornam as sopas muito idênticas); 

- a combinação de fibras alimentares com um elevado teor em água tornam-na num bom regulador intestinal;

- nas crianças, constitui muitas vezes a única forma de estas ingerirem vegetais;

- permite aproveitar vitaminas e minerais que se perdem quando se desperdiça a água de cozedura; 

- é pouco alergénica (fraca probabilidade de provocar alergias); 

- não contém as moléculas agressivas que se formam noutros processos de confeção (como nos fritos ou nos grelhados na brasa);

- proporciona ao organismo um bom aproveitamento dos seus nutrientes;

- é de fácil digestão;

- por ser um alimento com grande volume, sacia rapidamente, ao mesmo tempo que contém poucas calorias, sendo, por isso, um importante alimento na prevenção e combate à obesidade. 

Algumas sugestões de e para as sopas
Um dos truques para se gostar de sopa é variar os ingredientes que constituem a sua "base", bem como os vegetais que ficam a "nadar". Uma sopa não tem que conter, no mesmo dia, uma infinidade de legumes para aumentar o seu valor nutricional. Este é um erro comum que leva muita gente, crianças e adultos, a preteri-la. Dever ser saborosa e variada ao longo dos dias.

É importante que a base da sopa, constituída por farináceos, se assemelhe a um creme fino, e que não se deite mais massa ou arroz inteiros, a não ser no caso em que esta seja o único prato da refeição. O azeite adicionado não deverá exceder uma colher de café ou chá por cada prato. Tudo isto para que não contribua com demasiadas calorias para o valor calórico total da refeição.

Aqui fica uma pequeníssima amostra de sopas que poderá fazer. Mas o leque é infindável, basta imaginar ou procurar outras receitas. Bom apetite! 

Creme de cenoura
Base: batata, cenouras, cebola e nabo. Depois de bem cozidos, triture os legumes com a varinha mágica até obter uma sopa cremosa. Tempere com sal e um fio de azeite.

Sopa de agriões
Base: água, batata e (pouca) cenoura. Deixe cozer bem, tempere, triture e, no final, junte os agriões e um fio de azeite.

Caldo-verde
Base: batata e cebola. Deixar cozer, passar com a varinha, deite a couve cegada e deixe cozer pouco. No fim, adicione um pouco de azeite.

Sopa de feijão-verde
Base: batata, cebola, cenoura e um tomate. Deixar cozer bem, passar com a varinha mágica e, no final, adicionar e deixar cozer o feijão-verde cortado transversalmente em lâminas. Acrescentar também um fio de azeite.

Creme de ervilhas
Base: ervilhas congeladas, batata e cebola. Deixar cozer muito bem e triturar, de preferência no copo liquefator, até obter um creme. No fim, adicionar um pouco de azeite. Se for apenas para ser consumida por adultos, também poderá ser temperada com um pouco de pimenta ou tabasco.

Sopa de alface
Base: batatas, cebola e cenoura ou abóbora. Deixa-se cozer tudo muito bem e passa-se com a varinha. Junta-se então a alface ripada e um fio de azeite e deixa-se cozer pouco tempo.

de Paula Veloso in http://www.educare.pt/opiniao/artigo/ver/?id=11755&langid=1

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Brincar é tão importante quanto aprender!

Brincar é meio caminho andado para um desenvolvimento saudável. «As crianças saudáveis e felizes têm a vista na ponta dos dedos e a cabeça no ar, fazem uma asneira de oito em oito horas e esgotam as quotas de impertinência a que têm direito», refere Eduardo Sá. Em entrevista à Prevenir, o psicólogo clínico aponta pistas da felicidade na infância dos dias de hoje. O especialista incentiva os pais a reviverem as memórias do tempo em que brincavam e a acabar com a sobreproteção dos mais pequenos, reclamando inclusive o direito à dor.
Recorde-nos a sua infância. Quais os momentos de maior felicidade de que tem memória?
Enquanto criança, recordo como os mais puros momentos de deleite, estar, com apenas dois anos, tardes inteiras com a cabeça no colo da minha avó.
Podemos tirar lições da criança que fomos para nos tornarmos melhores pais?
Sem dúvida, mas existem duas questões que me preocupam. Ou os pais nunca foram crianças ou talvez se tenham esquecido das crianças que foram. Parecem perder o coração e a alma. Tornam-se mais tecnocráticos do que propriamente pais, por vezes por se sentirem atropelados com algumas experiências infantis que tentam de tal forma fugir delas, fazer diferente, melhor, que quando se dão conta estão a ser outra coisa que não pais, lutam contra fantasmas.
Um exemplo disso acontece quando se tenta explicar às crianças para onde vão as pessoas quando morrem, como se a morte fosse um assunto perfeitamente esclarecido e resolvido dentro dos pais. Nas questões essenciais, não somos tão crescidos assim.
Quais são as principais diferenças entre a infância do seu tempo e a de hoje em dia?
Somos a civilização que criou, até hoje, as melhores crianças. Demagogia à parte, nunca os pais foram tão atentos e cuidadosos e nunca as crianças foram tão felizes... até à entrada na escola. O que acho dramático é que esses pais, até a essa altura fabulosos, parecem perder a compostura.
Acham que, de repente, a escola é mais importante do que devia ser ao mesmo tempo que afirmam que antigamente ocupava menos tempo, aprendia-se o mesmo e eram mais felizes. Os pais querem sempre transpor o que de melhor tinha a sua infância para a dos seus filhos. Então, porque não questionar as horas de aulas de hoje?
Hoje é mais fácil ou mais difícil fazer uma criança feliz?
Fazer uma criança feliz exige sempre uma adaptação dos pais. Se os pais não desistirem desse estatuto, isso vai fazer a criança ser mais feliz. Preocupa-me que, por vezes, as agendas das crianças sejam preenchidas por outras pessoas que não os pais. A família é sempre muito mais importante que a escola. Brincar é tão importante quanto aprender.
Quando as crianças estão na escola quando podiam estar com os pais, isso revela que as hierarquias estão desajustadas. A formação escolar é tão importante quanto a escola da vida e é isso que ajuda a resolver os problemas quotidianos.
Quais os novos desafios para os pais e para os filhos atualmente?
Hoje, o desafio mais importante para os pais é abandonar a ideia de que as crianças e os jovens são de porcelana. A ideia de, por exemplo, as crianças frequentarem o mesmo grupo desde o primeiro ciclo até ao nono ano é um atentado  à saúde mental. As crianças ganham mais se tiverem outros colegas e professores. Tornam-se mais versáteis.
Às vezes, de tanto querer proteger as crianças, estamos a criar uma imunodeficiência à dor. Devemos reabilitar o direito à dor. Assim, vamos ter crianças mais felizes pois é preciso errar para aprender e desenvolver uma espécie de sexto sentido».
Haverá uma chave para a felicidade das crianças?
Ninguém é feliz sozinho. Devemos defender a convivência familiar. Tirar a televisão do quarto das crianças e da hora do jantar e promover o convívio. O que torna as crianças felizes é sentirem a presença dos pais. Quanto mais elas tiverem os pais nas suas vidas mais felizes serão. E brincar com elas e deixá-las brincar. Falamos de algo que deveria ser património da humanidade e uma das chaves da felicidade.
E existirá uma fita métrica dessa felicidade? Como podem os pais saber se o seu filho é feliz?
Quando as crianças estão distantes ou quando estão invariavelmente sob um registo eufórico, algo está mal. As crianças saudáveis são aquelas que, de quando em vez, ficam tristonhas. Se não vivermos a dor devagarinho não conseguimos ser felizes. Têm a vista na ponta dos dedos e a cabeça no ar, fazem uma asneira de oito em oito horas e esgotam as quotas de impertinência a que têm direito.
Fazer uma criança feliz tem mais a ver com dar à criança o que ela quer ou dar-lhe o que ela precisa?
Os pais devem ser uma entidade reguladora. Devem definir regras de acordo com as suas convicções, de bom-senso e sabedoria.  Os maiores inimigos dos bons pais são os pais bonzinhos. Não é por se fazer todas as vontades às crianças que elas gostam mais de nós e são mais felizes.
Como podemos ajudá-las a lidar com as frustrações?
É importante que as crianças sintam a derrota pois a vitória, por vezes, escapa-nos. No entanto, aos pais aconselho que sejam convincentes nas suas decisões, que incutam respeito.
Qual a importância da felicidade na construção da personalidade de uma criança?
A felicidade de uma criança é o maior alicerce da sua personalidade. Quanto mais tivermos cuidado nos primeiros dois anos de vida, mais criamos crianças com um conjunto de recursos que as tornam afoitas, seguras de si, expeditas e curiosas. Obviamente que, enquanto tivermos este cuidado, podemos ter a certeza que vão constipar-se, sentir perto a morte de alguém da família, mas vão manter o equilíbrio, continuar organizadas.
Se, pelo contrário, as protegermos excessivamente, tentando evitar frustrações, à primeira contrariedade vão partir-se como se de uma peça de porcelana se tratasse e, isso sim, é trágico.

As crianças são mais felizes se:
  1. Os pais exibirem versatilidade e adaptação.
  2. A família for encarada como muito mais importante que a escola.
  3. Brincar for entendido como tão importante quanto aprender.
  4. Os pais forem sempre o mais presentes possível.
  5. Os pais servirem de entidade reguladora.
  6. Os pais lidarem com as frustrações das crianças com todo o orgulho.
  7. Filhos e pais sentirem um orgulho recíproco.
  8. Os pais optarem por uma filosofia de transparência e de autenticidade.
  9. Se os pais abandonarem a ideia de proteger excessivamente as crianças.
Texto: Carlos Eugénio Augusto com Eduardo Sá Psicólogo (clínico e psicanalista) in Crianças a Torto e a Direitos e imagem de Eric Carle do livro infantil "Amigos"

sábado, 8 de agosto de 2015

37º Congresso do Movimento da Escola Moderna

Este ano o Movimento faz 50 anos de existência e sem dúvida que é a presença mais coerente e inspiradora da pedagogia em Portugal! Nós tivemos o privilégio de estar presentes em mais um Congresso que nos fez refletir em conjunto com excelentes profissionais que juntos fazem connosco esta caminhada!


Assim que chegámos à Faculdade de Psicologia de Lisboa entramos dentro de uma maravilhosa exposição que, mais um ano, reflete o trabalho que se vai fazendo por esse país fora. 


O nosso colégio esteve representado, não só na exposição, como também pelas maravilhosas comunicações que a Marta Botelho, a Mónica e a Marta Reis fizeram!


Este ano a Mónica levou ao Congresso uma comunicação sobre a Creche e foi com a Vera que partilharam percursos, histórias e ideais... tudo sob o olhar embevecido de uma plateia cheia!



A Marta Reis preparou duas comunicações para este ano: uma com a educadora Sofia Silva sobre correspondência no Jardim de Infância, e ainda uma outra com a Marta Botelho sobre os valores e princípios do MEM.


A meio do Congresso recebemos a Revista do MEM com o primeiro artigo do MEM e da Creche, escrito em parceria com a nossa querida Mónica e outras excelentes educadoras.  "Finalmente... depois de anos de espera, depois de muitos caminhos desbravados, depois de avanços e retrocessos, depois de muitas reflexões em conjunto chegou o primeiro escrito sobre a creche e o Movimento da Escola Moderna! Um orgulho!!"



Foram três dias inesquecíveis de grande reflexão e convívio! Para o ano há mais... no Porto!

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Bebés autónomos aprendem melhor

Os bebés que aprendem junto dos adultos a serem mais autónomos adquirem mais cedo fortes ferramentas cognitivas, que os ajudam a desenvolver nos campos sociais e psicológicos. Pelo menos é o que defendem investigadores canadianos, para quem o papel da mãe neste processo de aquisição de autonomia é absolutamente central.
Os pesquisadores da Universidade de Montreal mostraram que “o funcionamento executivo da criança está ligada à capacidade da mãe para apoiar a sua autonomia. Esse apoio inclui coisas como dar-lhe ferramentas para enfrentar desafios e deixá-la tentar resolver problemas sozinha, por exemplo, na realização de pequenas tarefas adequadas à sua idade”, disse Célia Matte-Gagné, que liderou o trabalho.
A investigação contou com a participação de 78 mães e filhos participaram do estudo. As famílias foram visitadas em casa duas vezes - uma quando a criança tinha 15 meses e outra aos três anos. Na primeira sessão, as mães foram convidadas a concluir atividades que eram ligeiramente difíceis para os bebés completarem sozinhas (a construção de uma torre e completar puzzles na primeira consulta e triagem de blocos na segunda). As atividades foram vídeo-gravadas para que os pesquisadores pudessem avaliar o nível de autonomia dada aos bebés: até que ponto as mães incentivavam os filhos a completarem a tarefa sozinhos ou, pelo contrário, controlavam os acontecimentos e até entravam em ação.
Os bebés foram avaliados uma segunda vez, aos três anos, utilizando uma gama de jogos adaptados que revelaram as suas capacidades de adiar a gratificação, a força de sua memória de trabalho e a sua capacidade de pensar sobre vários conceitos simultaneamente.
Os resultados mostram que as pontuações mais altas aos três anos são as das crianças cujas mães apoiaram consistentemente um comportamento autónomo dos bebés, ou seja, que os deixaram livres para tentar, errar e, eventualmente, acertar. "Este estudo levanta a possibilidade de que as capacidades cognitivas das crianças estão ligadas à promoção da autonomia por parte dos adultos e ao longo do tempo”, conclui a mesma investigadora.
Fonte Pais e Filhos

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Os tablets e as crianças

Peritos defendem limitação do tempo de utilização de tablets em crianças 

http://criancasatortoeadireitos.files.wordpress.com/2014/01/d-r.jpg 

Os tablets só chegaram ao mercado há três anos, mas já conquistaram um número muito significativo de adeptos. Mais simples do que um computador convencional, são especialmente intuitivos para os mais novos, que com facilidade aprendem a consumir conteúdos ou jogar nestes aparelhos
Não havendo dispositivos intermediários como o rato de computador, restam os gestos: intuitivos, especialmente quando as interfaces de utilizador que predominam nestes aparelhos estão concebidas para adoptar uma abordagem mais simples do que num PC convencional. O potencial pedagógico que estes aparelhos representam, no entanto, parece dividir e preocupar os peritos na matéria, segundo reportou recentemente a Techland.
Em mercados como os EUA, por exemplo, a adoção dos tablets é muito superior à adoção em Portugal, sendo por isso mais comum que as crianças daquele território tenham maior facilidade de acesso a estes aparelhos. Empresas como a Samsung têm vindo inclusive a lançar propostas direcionadas para as audiências mais novas (a empresa lançou recentemente uma variante para crianças do seu Galaxy Tab).
O facto de ser uma categoria de produto relativamente nova  ainda não reuniu um consenso absoluto e divide os peritos, uma vez que as análises sobre o impacto real destas tecnologias no desenvolvimento das crianças ainda se encontra numa fase algo embrionária.
Não fazer do tablet uma segunda ‘televisão’
Apesar de ainda não existirem provas concretas do valor educativo que um tablet pode proporcionar ao desenvolvimento de uma criança, uma das preocupações que os peritos levantam em relação ao uso destes equipamentos está diretamente relacionada com o tempo dispensado à sua utilização.
Se o mesmo for superior ao tempo gasto em interações com adultos, ou até mesmo a brincadeiras com aparelhos não-eletrónicos, o principal receio está na sua potencial interferência em atividades que promovam o seu desenvolvimento cerebral.
O excesso de tempo passado em frente a um ecrã pode apresentar riscos e conduzir a problemas de adaptação social, além de potencialmente contribuir para um desenvolvimento social mais tardio.
Isto não significa que não existe valor em aplicações ou jogos pedagógicos, mas sim riscos associados à utilização concedida aos dispositivos – se um tablet ou smartphone for utilizado maioritariamente para consumo de vídeos, por exemplo, os seus efeitos poderão aproximar-se mais aos provocados pelo consumo excessivo de televisão.
Parece haver um consenso, contudo, sobre a necessidade dos pais estarem presentes durante o consumo de conteúdos em dispositivos móveis. Os peritos defendem medidas como a limitação do tempo dispensado para a utilização de tablets, de forma a não interferir com atividades como o sono, a leitura ou a interacção com adultos.
“A coisa mais importante para as crianças é tempo [passado com] os pais e educadores”, de acordo com Dimitri Christakis, pediatra norte-americano, citado na Time. “Nada é mais importante em termos de desenvolvimento social. Se o tempo passado com o tablet vem à custa disso, isso não é positivo”.
Estas interferências em outras atividades podem resultar em efeitos colaterais negativos como um desenvolvimento da linguagem mais tardio, ou um retardamento do desenvolvimento social. Um dos motivos apontados está no facto de que a utilização destes dispositivos assenta frequentemente numa natureza solitária, e rouba tempo às crianças para fazerem novos amigos ou adquirirem competências sociais.
O outro lado da moeda revela-nos uma perspetiva mais positiva e otimista em relação à interação das crianças com dispositivos móveis. Existem pediatras que acreditam haver benefícios em tecnologias como estas, incluindo a sua facilidade de uso – uma criança pode ter facilidade em absorver e compreender uma tecnologia destas ainda antes de entrar na escola, entrando no ambiente escolar melhor preparada do que uma criança que nunca teve qualquer contacto pedagógico com nenhum destes aparelhos.
Por Lauro Lopes


domingo, 19 de janeiro de 2014

Atacar a constipação (conselhos práticos)

A maioria dos pediatras não gosta de prescrever anti-tússicos (vulgo xaropes para a tosse) em crianças e têm razões para isso. A maioria não são eficazes e alguns deles até produzem mais secreções, 'encharcando' a criança. Já há alguns anos que a Associação Americana de Pediatria (AAP) desaconselhou os os xaropes da farmácia em favor dos remédios caseiros. Este texto (em inglês) do website da AAP é muito útil, porque esclarece o que podemos e devemos fazer para a atacar a constipação em cada grupo etário. Eis o resumo com um twist de cirurgião:
  1. Nariz pingoso? Assoar, limpar e/ou aspirar. O uso de anti-histamínicos (Fenistil, Atarax, Aerius, entre outros) é controverso, pois parece ter apenas eficácia nas alergias. Pessoalmente, acho que tentar não custa (muito) e, quando há melhoria, mantenho.
  2. Nariz obstruído? Limpar com soro fisiológico. Isto pode ser feito através da instilação de gotas em cada uma das narina, seguido de aspiração, ou irrigação com spray de 'água do mar' (existem de diferentes forças, consoante a idade). A AAP não refere o uso de gotas de fenilefrina (vulgo Neo-sinefrina), mas eu uso no mais velho, ainda que só em desespero de causa.
  3. Tosse? Hidratar bem e 'fazer vapores' (com vaporizadores/nebulizadores ou apenas expondo a criança ao vapor de água do banho). Pretende-se com isto que as secreções se mantenham fluídas e que a criança tussa. Atenção! Nunca expor directamente nenhuma criança à água a ferver. É muito perigoso, porque, num instante, um movimento brusco leva a uma queimadura grave (ver aqui o que fazer). Se a criança tem mais que 1 ano, pode-se dar uma colher de mel à noite; se for maior de 6 anos, pode chupar rebuçados. (1)

Se a criança ainda não tem 3 meses, se a febre é de preocupar (ver aqui), se há a sensação de falta de ar ou se o seu 'olhómetro' lhe diz que não se trata de uma simples constipação, não tente isto em casa. Consulte o médico ou pediatra assistente.


[fonte: thefw.com]

(1) O artigo da AAP não refere, mas existe um estudo de 2010, afirma ainda que o uso de óleo de extractos de cânfora/mentol/eucalipto (vulgo Vicks VapoRub) aliviam a sintomatologia nocturna. No mesmo estudo, 46% apresentaram algum tipo de efeito adverso, geralmente irritação local ligeira. Mais, alguns receios de toxicidade limitam o seu uso a maiores de 2 anos.´

João Moreira Pinto cirurgião pediátrico in eosfilhosdosoutros.blogspot.pt 

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

“É urgente brincar…”, sobretudo em idade pré-escolar!

“Privar uma criança de brincar é privá-la do prazer de viver”
Françoise Dolto


«Actualmente vivemos numa sociedade em que tudo se faz “a correr”… O tempo é um bem precioso e a gestão do mesmo acaba por ser uma arte de mestria. Esta constante vivência em “correria”, onde tudo é agendado ao minuto, contamina inevitavelmente o dia-a-dia das crianças, preenchido pela presença no jardim-de-infância ou na escola, e, simultaneamente, em inúmeras actividades extra-curriculares. A própria evolução urbanística conduz a uma vivência confinada a espaços físicos restritos e limitados (exp: o apartamento e os edifícios citadinos em que se situam os jardins de infância, escolas e pátios de recreio), acompanhados de muitas regras constantes e restritivas: “Está quieto”, “Não mexas nisso”, “Não te sentes no chão”, que “bombardeiam” as crianças todos os dias.

Também esta “pressa” e ânsia de acelerar processos que deveriam ser naturais ao longo do crescimento, conduz a um contacto cada vez mais precoce com aprendizagens excessivamente escolares (ainda em período pré-escolar), em detrimento de outras, que contribuem para a aquisição e desenvolvimento de competências psicossociais e de auto-regulação emocional. Mais importante do que saber ler, escrever ou contar quando se entra na escola, é fundamental aquirir e construir previamente uma matriz psicossocial individual segura, capaz de receber e transformar esses conteúdos escolares. Esta matriz passa por a criança ser minimamente autónoma e confiante para estar numa sala de aulas, respeitar figuras de autoridade e regras estabelecidas, interagir/comunicar com os outros (professor, funcionários, colegas, etc), colocar dúvidas, fazer perguntas, tomar decisões, criar soluções e resolver problemas.

Assim, frequentemente a actividade por excelência que as caracteriza – o brincar – fica esquecida no meio da rotina e da vivência diárias. Durante muito tempo pensou-se que brincar não teria utilidade biológica ou social, mas na realidade, brincar é, por excelência, um dos fenómenos mais comuns e naturais da infância, assumindo-se como uma forma de estabelecer interacções sociais e um meio poderoso de aprendizagem sobre o mundo. Ora, tal actividade fundamental não é específica do Homem, sendo igualmente partilhada por outras espécies.

Desta forma, a actividade lúdica permite estabelecer um elo de ligação entre as crianças sendo um poderoso auxiliar na construção da relação com os outros e com o meio que as rodeia. 

Detentora de um papel fundamental no desenvolvimento emocional, cognitivo e social, possibilita a estimulação da criatividade e o desenvolvimento da autonomia, da linguagem e de papéis sociais (fundamentais para a vida adulta), dotando a criança de maiores capacidades para pensar e resolver problemas. De facto, através do brincar a criança vai-se familiarizando com as regras sociais e tomando contacto com experiências novas: ela explora, pesquisa, experimenta e aprende. 

Experimenta com relativa segurança ou com o mínimo de riscos (porque são situações puramente imaginárias) novos comportamentos físicos ou sociais, num contexto familiar e contentor, com a vantagem dos comportamentos lúdicos serem, em grande parte revogáveis: o que se faz “a brincar” não tem as consequências habituais de um comportamento semelhante feito “a sério”. O jogo é algo com impunidade relativa e características não sérias. Toda e qualquer brincadeira requer que as crianças tenham consciência destes aspectos e que emitam e reconheçam o sinal que se traduz por: “isto é uma brincadeira…”.

Brincar permite ainda que a criança se mantenha fisicamente activa, que desenvolva a personalidade e as competências sociais, ajudando-a a lidar com emoções e sentimentos, possibilitando:
  • encenar experiências emocionais (por exemplo: separação dos pais, situações de luto, alterações significativas na vida da criança, sentimentos de alegria, tristeza, ciúme, medo, etc);
  • “libertar” tensões (por exemplo: alívio da dor, desconforto, frustração);
  • pesquisar (observar, explorar, descobrir);
  • treinar as competências de autonomia e de independência (actividade espontânea e voluntária, implicando empenhamento activo por parte da criança);
  • divertir-se (sem objectivos específicos, apenas algo agradável e positivo).
À medida que a criança cresce, assiste-se a uma evolução social de situações em que brinca sozinha, para brincadeiras cada vez mais cooperativas. Ser, ter, fazer, tomar, dar, amar, odiar, viver, morrer, todos estes verbos não ganham sentido senão através do jogo. O brincar assume, desta forma, uma preparação para as acções e comportamentos da idade adulta.
Por tudo isto, para além do espaço do jardim de infância/escola e das actividades extra-curriculares (predomínio das regras e de momentos organizados/estruturados) é também fundamental:
  • Aceitar e ter em conta que o brincar está presente desde o nascimento. Antes do aparecimento da linguagem a criança já comunica com os adultos através da mímica, nos gestos, nas actividades corporais e sensoriais. Por volta dos 3 meses um dos primeiros jogos com o adulto é o de esconder o rosto e mostrá-lo de novo, depois surgem actividades de exploração e manipulação dos objectos do meio, jogos em torno do ter e guardar (encher objectos com coisas que se transportam), e, mais tarde, jogos de fazer coisas (puzzles, construções). A partir da idade em que a criança começa a andar é necessário destacar em especial os jogos com água, areia, ou terra, aos jogos de enchimento e de esvaziamento de recipientes. Este é o momento da explosão da curiosidade investigadora e manipuladora dos objectos, tudo suscita perguntas e tudo se tenta agarrar, despedaçar, fragmentar.
  • Variar os brinquedos da criança. Quando a criança já descobriu as dificuldades de um jogo e as ultrapassou, poucas são as surpresas ou interrogações. É preciso variar os brinquedos e jogos de forma a estimular os sentidos, a criatividade e a inteligência da criança. Pode-se tentar fazer troca de brinquedos com outras crianças ou procurar ludotecas que ajudem nesse sentido. (Nota: aqui entendem-se jogos de ludoteca os livros para crianças, os jogos de construção, os jogos de motricidade, inventivos, criativos, de lógica, etc; não são de forma alguma incluídos os peluches, a boneca preferida, enfim, os brinquedos que são “os primeiros amores” da criança, que ela usa para adormecer, ou para se acalmar quando os pais estão ausentes).
  • Reforçar com os pais que o “tempo de qualidade” para a brincadeira é preferível ao “tempo de quantidade”. São preferíveis 15/20 m., por exemplo, em que os pais apenas focam a sua atenção no estar e brincar com a criança, do que ter 3 horas em que, no meio de outras tarefas, se vai falando e interagindo. Esses momentos de “qualidade” podem mesmo ser combinados com a criança, de modo a que esta perceba que, nesse tempo, o adulto vai estar disponível só para si.
  • A brincadeira não deve ter muitos “nãos” (por exemplo: “não corras”, “não saltes”, etc). Para brincar a criança tem que se sentir numa atmosfera segura e de não ameaça, portanto, a guarda contínua dos pais e/ou educadores podem dificultar a tarefa espontânea de brincar. As crianças precisam de limites para se sentirem seguras, mas isso não significa que não possam exprimir os seus desejos, as suas alegrias e as suas tristezas (que devem ser ouvidas pelo adulto).
  • Brincar ao ar livre, onde podem ser efectuadas actividades diferentes das realizadas no espaço físico limitado da casa, ou do jardim de infância/escola. O espaço envolvente representa para as crianças um desejo muito intenso, é a ânsia de mover-se, correr, descobrir coisas novas, enfim… sentir a vida quase através dos “poros da pele”. Porém, deve também ter-se em conta que algumas crianças brincam ficando apenas a olhar, ouvir, cheirar, sentir. São prazeres passivos, inteligentes, observadores, e, por vezes, mesmo meditativos.
  • Reduzir a pressão na aprendizagem de conteúdos escolares, ainda no período pré-escolar. Nesta fase o que se torna realmente necessário é que a criança brinque, consiga enquadrar-se e socializar com o grupo, que respeite as regras da sala, que aprenda a ouvir os outros, que se concentre numa actividade (jogo, desenho, história, etc) e a conclua dentro das suas capacidades, que desenvolva a motricidade, a criatividade e a capacidade de pensar sobre as coisas. Basicamente a criança necessita de crescer, ganhar maturidade e competências pessoais e sociais, para futuramente, estar mentalmente disponível para aprender a ler, escrever e contar, quando chegar o momento de ingressar na escola.»

terça-feira, 8 de outubro de 2013

"Eu quero!!!"

Artigo de opinião de Sofia Nunes Silva publicado no Público de 26 de setembro de 2013.


É sexta-feira, Tânia vai buscar Mafalda (5 anos e 6 meses) à escola e vão as duas ao supermercado fazer as compras do mês lá para casa, como já vem sendo habitual.
Tânia: Então, querida correu bem o dia?
Mafalda: Sim! Vamos ao supermercado? Vais comprar aquelas gambas para comermos com a massa preta?
Tânia: Meu Deus, Mafalda! Tens tudo programado! Sim, querida. É o que fazemos sempre, não é?
Mafalda: Mãe, podemos ir ver se já chegaram mais bonecos da nova colecção dos Little Pet Shop?
Tânia: Podemos, mas sabes que mesmo que já tenham chegado…
Mafalda: O quê?
Tânia: Hoje não vamos trazer nenhum. É só de 15 em 15 dias, como combinámos.
Mafalda: Oh, mãe vá lá… Só hoje! Prometo!
Tânia: Querida, então? O combinado não era que a mãe te comprava um de 15 em 15 dias? E se pudesse? A semana passada comprámos um agora é só na próxima semana. Ok?
Mafalda: Sim…
Já no supermercado:
Tânia: Vá querida, vai pondo as cenouras aqui para o saco enquanto a mãe escolhe os tomates.
Mafalda: São quantas?
Tânia: Dez.
Mafalda: Já está! Podemos ir agora ver se há?
Tânia: Vamos! Mas já sabes não é?
Mafalda: Já chegaram! Não é tão querida a joaninha, mãe?
Tânia: É, querida. É um amor! É esse que queres levar para a semana?
Mafalda: Por favor, mãe. Só hoje!
Tânia: Mafalda, já falámos sobre isto.
Mafalda: Oh mãe, mas a mãe da Constança compra-lhe sempre um todas as semanas! Porque é que eu não posso?
Tânia: Porque a mãe e o pai não têm dinheiro para te dar um boneco todas as semanas e porque eu não acho que seja um bom hábito, e porque tenho a certeza que não é por isso que a Constança é mais feliz!
Mafalda: Mas pelo menos tem uma colecção maior que a minha! E vai acabar mais rápido!
Tânia: Tu também vais fazer a colecção toda. Só que mais devagarinho. Até acho que assim brincas mais com cada boneco.
Mesmo ao lado Tânia e Mafalda assistem a uma discussão entre uma mãe e um filho, de aproximadamente três anos de idade:
Mãe: António, já te disse que não vale apena pedires mais carros! Ainda ontem te comprei um!
António: Então quero um lego!
Mãe: Já te disse que não te compro mais nada!
António atira-se para o chão a chorar e a espernear enquanto grita:
António: Tu não gostas de mim! Eu quero! Ninguém gosta de mim!
Mãe: Pára com isso António! Está toda a gente a olhar para ti! Estou tão cansada!
A partir daqui, António ainda chorava e gritava mais alto captando todas as atenções. A mãe permanecia imóvel ao comportamento do filho e com um ar esgotado.
Mãe: … Está bem, leva…
António, levanta-se rapidamente e vai buscar o lego que queria. Com um leve sorriso na cara.
António: Obrigada, mãe! És a melhor mãe do mundo!
Tânia e Mafalda ficaram paradas, caladas e também imóveis enquanto António e a mãe se afastavam.
Tânia sentiu pena daquela mãe, que parecia muito cansada e sem capacidade para conseguir dizer que não ao filho que reagiu com descontrolo e chantagem emocional face à “ameaça” da mãe perante a sua ausência de tolerância à frustração.
Para os pais a questão da gestão dos pedidos dos filhos é um constante desafio! Sobretudo, nas últimas décadas em que a nossa sociedade passou a assumir o lema do consumo criando necessidades reais ou não para pais e filhos. A facilidade de acesso ao crédito fácil mergulha muitas famílias numa ilusão de que se pode ter tudo, levando-as a adoptarem estilos de vida e de consumo muito superiores às suas reais capacidades e necessidades.
Os pais devem gerir os pedidos dos filhos com muita contenção. Actualmente, vivem-se tempos de crise onde temos visto famílias que de um momento para o outro perdem os seus empregos. Outras, veem os seus rendimentos diminuídos ou sentem uma clara quebra no seu poder de compra. Este é um tempo difícil para todos. Por isso, é errado transmitir às crianças que é possível comprar tudo. Porque isso é uma ilusão.
É uma ilusão que depois elas transpõem para os outros planos da vida, além do consumismo. Como nas próprias relações com os outros, onde o “ter” passa a ter uma importância superior ao “ser”. Que sentido tem para os nossos filhos crescerem habituados a utilizar bens materiais como intermediários ou como forma de afirmação na relação com os outros? Esta é uma questão fundamental que nos devemos colocar. Pelo menos temos a garantia que não terão tantas oportunidades de desenvolver as suas próprias capacidades de empatia e de afirmação social perante o grupo, e que mais tarde ou mais cedo sofrerão estas consequências.
É importante que as crianças cresçam com a noção da realidade e das dificuldades. Uma criança que acha que pode ter sempre tudo o que quer cresce sem limites e com um sentido de omnipotência. E quando não tem limites também desenvolve sentimentos de insegurança noutras situações, como aquelas que o dinheiro não compra. Cresce sem resistência à frustração.
A negação de alguns pedidos por parte dos pais além de permitir à criança confrontar-se com a realidade pode constituir boas oportunidades para aprender a lidar com a sua frustração. Como já dissemos anteriormente esta é uma importante função parental. Dar oportunidades para experimentar e vivenciar sentimentos de frustração vai ajudá-la a sentir-se mais segura e confiante para lidar com outros momentos de frustração que a vida inevitavelmente proporciona.
Há muitas famílias que sentem que quanto maior número de presentes ou pedidos satisfizerem às crianças melhor e mais forte se tornam as suas relações. Isto está longe de ser verdade, além de que constitui um enorme perigo no desenvolvimento das relações familiares.
 É fundamental entendermos que mais do que termos a garantia de que os nossos filhos podem ter tudo importa que os ajudemos a crescer com um sentido da realidade, da partilha, da solidariedade nas relações o que passa essencialmente pela construção do ser, onde o ter não deverá assumir qualquer primazia. Este é mais um dos grandes desafios da parentalidade!
Mas como as crianças fazem essencialmente aquilo que vêem fazer mais do que o que ouvem dizer, os pais devem eles próprios reflectir sobre a forma como gerem os seus desejos e vontade de consumo.
As crianças têm que aprender a dar valor às coisas que têm e recebem. Não ceder no imediato aos pedidos permite-lhes desenvolver a capacidade para aguardar receber determinado presente, esforçarem-se para ter determinada coisa, que o seu bom comportamento pode representar maior valorização por parte dos pais sem que tenha que implicar receber algo.
Os pais podem sentir que já dedicam pouco tempo aos filhos no dia-a-dia e que todo o tempo que lhes resta é para passarem em ambiente de calma e tranquilidade cedendo aos muitos pedidos que lhes fazem e evitarem assim momentos que possam ameaçar todo este clima que desejam manter. No entanto, como já dissemos saber dizer não faz parte de uma educação que se quer equilibrada e responsável. Além de ser um grande acto de amor por todas as boas consequências que se reflectirão ao longo do crescimento dos filhos!

Sofia Nunes Silva é psicóloga clínica e terapeuta familiar. A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Não dê Férias a todas as regras!

Por Rita Pimenta
A família anseia por férias, mas isso não significa que o período de ausência de trabalho resulte em verdadeiro descanso. Mais ainda quando há crianças por perto. Não ceda à tentação de eliminar todas as regras ou correrá o risco de chegar ao final do Verão a precisar de férias.
A pediatra Ana Paula Simões diz que esta época “deve ser uma oportunidade para descansar da azáfama louca do dia-a-dia”, mas defende que não se pode abandonar “regras básicas e que há limites a ser cumpridos, embora com alguma flexibilidade”. Ou seja, se os horários não devem ser tão rígidos como no período escolar, há no entanto que manter algumas rotinas, “nomeadamente em relação ao sono e à alimentação”. Pode haver alguma trégua nas regras, mas elas não deverão desaparecer totalmente.
Os miúdos nunca deverão ir muito tarde para a cama, mesmo que não tenham de se levantar cedo no dia seguinte. “Se a criança não tiver uma boa noite de sono, fica mais irritada durante o dia e facilmente faz birras quando é contrariada”, diz ao Life&Style a especialista da clínica Cuf de Alvalade, em Lisboa. E já todos assistimos a “medições de forças” entre crianças e adultos na praia, por exemplo. Uma boa noite de sono poderia ter evitado alguns desses conflitos e contribuído para o bem-estar da criança (e da família).
“O mesmo se aplica às refeições”, prossegue Ana Paula Simões, “mesmo nas férias, deve ser mantido um horário de refeições regular, com pequenos lanches nos intervalos. Deve optar-se por soluções saudáveis, como fruta, iogurtes ou barras de cereais”.
Actividades a mais
Outro equívoco por parte de algumas famílias em relação aos mais novos “é a convicção de que é preciso proporcionar-lhes diversão a todo o momento”. Para a pediatra, essa “é uma característica do nosso tempo”, já que as pessoas “têm imensa dificuldade em parar”.

Esse excesso de actividades acaba por ser cansativo para todos e deixa os miúdos demasiado excitados. “É necessário encontrar o equilíbrio certo e ensinar as crianças a aproveitar os momentos de ócio. Assim, desfrutarão melhor dos momentos de diversão”, acredita Ana Paula Simões.
As férias de Verão são, segundo a pediatra, uma óptima oportunidade para compensar a falta de convívio entre todos durante o resto do ano. Por isso sugere que estejam “simplesmente juntos, sem pressas, vejam um filme, passeiem e durmam a sesta”. A especialista não tem dúvidas de que “isto vai criar uma aproximação entre todos e reforçar laços”.
Proibido falar de escola
Se as demonstrações de afecto e carinho aos filhos são importantes sempre, e “indispensáveis para o seu desenvolvimento emocional equilibrado”, as férias proporcionam momentos de descontracção que devem ser bem aproveitados nesse sentido. “Estar bem-disposto e disponível para brincar com as crianças, observá-las e desfrutar do seu convívio vai tornar as férias especiais”, diz a médica. E acrescenta: “É importante aproveitar para pôr a conversa em dia, conhecer melhor as suas preferências em relação a brincadeiras, música e Internet. Os pais devem tentar transmitir aos filhos princípios e valores, mas também saber ouvi-los, não esquecendo a sua própria personalidade e individualidade.”

Se o momento é de pausa escolar e de trabalho, esses assuntos passam a ser tabu. Conselho de Ana Paula Simões:“Liberte-se do stress do trabalho e liberte as crianças das preocupações escolares.” Garantia: “O regresso será feito com mais motivação e vontade.” E nada de tarefas escolares, nem mesmo para aqueles que tiveram maus desempenhos. “Não se deve tentar recuperar nas férias aquilo que não foi feito durante o ano lectivo.”

A pediatra sugere que se “estimule o gosto pela leitura como um prazer” e não “como um trabalho de casa”. Para isso, diz aos pais que dêem liberdade à criança para “fazer as suas próprias escolhas, de acordo com os seus gostos e com o seu ritmo”. Uma boa regra.
 in Crianças a Torto e a Direitos

segunda-feira, 13 de maio de 2013

"Há pais que compram muitos brinquedos porque não se sabem relacionar com o bebé"



NADIA BRUSCHWEILER-STERN
"Nove meses de gravidez trazem a promessa de um relacionamento intuitivo com o bebé que nem sempre se cumpre. Como pegar-lhe ao colo? É normal que ele não olhe para a mãe? A que é que se brinca com um recém-nascido? Numa visita a Portugal, a pediatra Nadia Bruschweiler-Stern explica como método Brazelton pode ajudar famílias a lidar com estas e outras questões.

A busca de Nadia Bruschweiler-Stern do “bebé” começou na Medicina. Quando se especializou em Pediatria, sentiu que “se tratava o bebé como um organismo, com coração, pulmões, rins e tudo o resto, como um sistema onde tudo tinha que funcionar”, mas não era suficiente. Seguiu Pedopsiquiatria, onde trabalhou “a representação que a mãe faz do bebé, como ela o imagina e o que anseia para ele”. Mais uma vez não estava a olhar para o bebé. “Quando descobri o trabalho de Brazelton, encontrei finalmente o bebé”, conta-nos numa visita a Lisboa para participar na conferência internacional “Valuing Baby and Family Passion Towards a Science of Happiness”, a 7 e 8 de Maio, na Fundação Calouste Gulbenkian. 
Nadia encontrou o método que procurava no trabalho iniciado por Berry Brazelton, que criou a Neonatal Behavioral Assessment Scale (NBAS), uma escala inovadora que funciona como instrumento de avaliação e permite aos médicos “ler” o bebé, o seu temperamento, vulnerabilidade e capacidade de relacionamento. É esta a orientação do Centro Brazelton, actualmente dirigido por Nadia Bruschweiler-Stern na Suíça, englobado numa rede internacional com mais de 15 centros pela América, Ásia e Europa. Em Portugal, o primeiro centro foi criado em 2000, tendo em 2010 sido incorporado na Fundação Brazelton/Gomes-Pedro para as Ciências do Bebé e da Família.

“Ao observar-se metodicamente um recém-nascido percebe-se que, tal como os adultos, todos os bebés são diferentes. Interrogamo-nos sempre: ‘Que tipo de bebé será e o que iremos descobrir sobre ele?’. Se analisarmos a criança no momento certo, descobrimos muito sobre o seu temperamento”, afirma Nadia que, regra geral, trabalha com bebés até aos dois meses de idade. Ao contrário do que se pensava quando a NBAS dava os primeiros passos, é impossível prever como será a criança uns anos mais tarde. “Uma questão essencial é que só conseguimos ver o bebé no contexto do ‘agora’, não conseguimos prever que tipo de pessoa será no futuro… E ainda bem. Isso seria assustador!”, desabafa. 

Todos bebés, todos diferentes
Na impossibilidade de traçar um perfil psicológico a longo prazo, os pediatras interessados no método Brazelton ajudam as famílias a conectar-se com o bebé, chegando em muitas sessão a haver aquilo que designam por “momento de encontro”, a altura em que a mãe, por exemplo, percebe que o recém-nascido a reconhece como tal. Imagine-se uma mãe a olhar o filho recém-nascido no seu colo: “eu sei que sabes que sou tua mãe”. Depois deste encontro, que nem sempre acontece em ambientes de consulta, “o bebé é visto e compreendido como uma pessoa e a comunicação é totalmente diferente”, defende Nadia Bruschweiler-Stern.

Um dos exemplos práticos mais utilizados pela pediatra suíça é o caso do pequeno Lucas, um recém-nascido com uma deformação no pé. Os pais, em choque com a desfiguração, “congelaram”, como se “o processo de ligação tivesse sido interrompido”, e apresentavam dificuldades no relacionamento com o recém-nascido. Na consulta, conforme relembrou Nadia perante a plateia cheia da conferência na Gulbenkian, a mãe percebeu que o bebé lhe reconhecia a voz e descobriu finalmente “que apesar da deformação, havia um bebé ali que queria a sua atenção e amor. Foi um momento único e essencial para que a família ultrapassasse aquele problema”, recorda a médica. 

Não há um “paciente-tipo” no consultório de Nadia, alojado na clínica privada Grangettes, em Genebra. “Os curiosos às vezes aparecem apenas porque sabem que há alguma coisa a acontecer com o bebé e não querem perder a oportunidade de descobrir o que é. Depois, há as razões psicológicas: pode ter havido uma perda na família e os pais não querem que a dor passe para o filho ou problemas no casamento. É possível que um bebé chore muito ou então que seja demasiado passivo e esteja sempre a dormir. Pode ser qualquer coisa…. Problemas de amamentação…é uma lista sem fim”, afirma a pediatra. Contudo, parece haver um padrão: “Nos dias de hoje muitos pais nunca tiveram um bebé nos braços e, como não sabem o que fazer, o que dizer ou como brincar acabam por lhes comprar demasiados brinquedos, em vez de se relacionarem.”

Uma das vertentes das consultas é orientar os pais, ensinando-os a ler os sinais e a interagir. “Ajudamo-los a sentir que controlam a situação. Como têm expectativas altas, alguns pais, sentem-se estúpidos e não querem fazer perguntas, porque acham que já deviam saber tudo. Isso pode gerar sentimentos de inadaptação e culpa”, afirma. O bebé que chora compulsivamente, deixando os pais mais tensos e menos compreensivos, é um exemplo clássico. “Quando não há relacionamento com o bebé é mais fácil culpá-lo. Depois de se estabelecer uma ligação, os pais percebem que não está a chorar só para os fazer acudir, mas sim porque não se sente bem. Aí entram em jogo as regras de sobrevivência e os pais acodem prontamente. É inato. É a natureza.”"
 Por Inês Raposo